Estou cansado de bancar-me de forte,
cansado de dissimular que nada me abala
quando por dentro estou em pedaços;
cansado de sorrir quando o peito é tempestade,
de dizer “está tudo bem”
quando a alma desmorona em silêncio;
cansado de erguer a cabeça
quando por dentro me arrasto de joelhos;
cansado de vestir armaduras
que me pesam mais do que me protegem;
cansado de ser a muralha que sustenta os outros
quando dentro de mim há rachaduras
que ninguém se importa em reparar;
cansado de carregar fardos que não confessei a ninguém;
cansado de sorrir com a boca
enquanto o coração sangra em silêncio.
Estou cansado de ser o que ampara,
o que suporta,
o que nunca cai,
mas ninguém pergunta: “e quando é que eu desabo?”
“E quem me segura quando sou eu o que cai?”
Estou cansado de fingir que não sinto,
de engolir lágrimas para não assustar ninguém,
de vestir coragem como se fosse pele
quando o corpo só pede descanso;
de sufocar medos como se fossem pó
varrido para debaixo do tapete;
cansado de ter que provar força
quando, no fundo, só queria repouso;
cansado de ouvir que “és forte, aguentas”,
como se isso fosse bênção,
quando, na verdade, é condenação.
Estou cansado de ser o abrigo
quando eu mesmo não tenho tecto,
de ser o ombro firme
quando não encontro onde deitar o meu;
cansado de apertar os punhos para não tremer,
cansado de ser o que conforta,
o que dá,
o que resiste,
quando no fundo só queria gritar:
“eu também preciso!”
Estou cansado de mascarar eternidade
num corpo que desmorona a cada noite,
de aparentar que nada me atinge
quando carrego cicatrizes escondidas
que ardem até no silêncio.
Estou cansado, sim:
de mim, dos outros, do papel de herói inventado,
erguido apenas para ostentar a autoridade que me exigem.
Estou cansado,
não da vida,
mas do papel que me impingiram:
o de não quebrar nunca,
o de aguentar sempre,
o de não pedir ajuda porque “fortes não precisam”.
Estou cansado de ser rocha quando por dentro sou rio,
de ser trincheira quando só queria ser abraço,
de ser silêncio quando só queria ser ouvido;
cansado de carregar sozinho o peso do mundo
como se eu fosse Atlas,
quando mal consigo sustentar meus próprios ombros;
cansado de sorrir para os outros
e chorar sozinho no escuro;
cansado de ter que provar que aguento,
quando a verdade é que não aguento mais.
Estou exausto de engolir gritos,
de calar medos,
de ajeitar posturas político-sociais,
de cancelar raivas interiores,
de aprovar futilidades que ornamentam politiquices.
Há noites em que me deito exausto,
mas não descanso,
porque até o sono exige que eu continue forte,
que eu sonhe como guerreiro,
mesmo quando só queria ser criança
pedindo colo no escuro.
Hoje só queria poder admitir:
eu também quebro,
eu também fraquejo,
eu também caio,
eu também sangro,
eu também preciso de abraço,
mesmo quando finjo que não,
eu também preciso de quem me levante,
alguém que entenda
que a minha força não é dom,
é ferida aberta que nunca cicatriza.
E se por um instante
eu deixar de bancar-me de forte,
não é desânimo,
é a minha pura capa existencial,
sou eu, na minha inteireza vivencial.