Reencontros em Nome da Agnelda
No dia 8 de Novembro, junto da minha esposa, Celsa Olinda Vembana, fui ao casamento da filha da Isabel Sacatucua e do Paulino Marote, a Agnelda, que aceitou o belo, alto e carismático Chambalson, filho de Jorge Chamal e Contestação dos Santos Chambal. Foi uma celebração de amor, sim, mas também, e sobretudo, um reencontro dos amigos e colegas dos pais em nome da memória, do afecto e do país que um dia sonhámos construir.
Já não me lembro do nome da mesa em que eu estava sentado, mas lembro-me bem dos colegas da mesma: Olga e o marido, Artur Furtado; eu e a minha cara-metade, Celsa; Francelino e a sua esposa; Victorina, irmã da Isabel Sacatucua, e o seu marido; Miguel Ndapassowa e o filho, e mais um casal cujo nome me escapa. Na mesa contígua estava Isaú Menezes e a sua beldade; mais além, Djalma Lourenço, José Castiano, o filósofo e Vice-Reitor da UP Maputo; Arnaldo Bimbe, o ex-Governador de Niassa; Simão Kaphece, entre outros. Não muito longe da nossa mesa estavam as duas antigas colegas da Namaacha: Verónica e Filomena. Em tom de brincadeira, eu disse à Olga que fizeram bem em não nos colocar junto daquelas duas, pois se o tivessem feito não prestaríamos atenção aos nossos parceiros. A emoção de reencontro seria tanta que as palavras tomariam conta da noite.
A festa reuniu gerações de afectos e devolveu-nos, por algumas horas, àquela juventude em que tudo parecia possível. O PITANI, onde a celebração decorreu, transformou-se num santuário da lembrança. Entre danças, cânticos e gargalhadas, o tempo pareceu suspender-se. Voltámos àquela juventude em que as palavras “revolução”, “solidariedade” e “pátria” ainda tinham peso, ainda tinham sangue.
Quando a Verónica Napuia me chamou “Smart”, tive a certeza de que já estávamos no território do passado. Aquele nome, tão simples e, ao mesmo tempo, tão cheio de histórias, era um dos mais conhecidos na Escola. Qudno me chamou foi como ouvir um eco antigo atravessando o tempo: bastou uma palavra para que as paredes da Namaacha se erguessem novamente diante de mim, trazendo de volta os cenários da nossa juventude, cheios de sons, risos e do brilho inquieto do entusiasmo juvenil. Por um instante, deixei de ser o homem que o tempo amadureceu e voltei a ser o rapaz curioso, cheio de sonhos e impaciências, que acreditava que o mundo começava ali — entre as salas, os debates e os corredores onde a vida ainda era uma promessa em construção. A voz da Verónica não apenas me chamou, mas convocou uma época inteira, um modo de estar e de acreditar que já parecia distante, mas que ainda respirava, discreto, dentro de nós. Naquele momento, compreendi que os reencontros não são apenas encontros com pessoas, mas também com as versões esquecidas de nós mesmos. E o nome “Smart”, outrora tão trivial, revelou-se um símbolo de identidade partilhada — de um tempo em que ainda éramos capazes de acreditar no futuro com inocência e bravura.
Revi os amigos da Escola Secundária da FRELIMO da Namaacha, aquele espaço que foi mais do que um internato e mais do que um centro de formação. Foi um ensaio de nação, um ventre onde se moldava o ideal do Homem Novo. Ali aprendemos a medir o mundo com a régua dos valores e a ver o outro como extensão de nós mesmos. Éramos adolescentes e acreditávamos, com a fé pura dos que ainda não conheceram o poder, mas já conheciam a esperança. Acreditávamos que o país era destino e o futuro, uma tarefa comum. Não tínhamos posses, mas tínhamos sonhos, e acreditávamos que bastava isso para reconstruir o mundo. A Isabel, agora mãe da noiva, conservava o mesmo olhar manso, como quem aprendeu a conversar com o tempo. Estava alegre e um pouco nervosa. Casar uma filha é um acto de desprendimento e de coragem. É como entregar um pedaço de si à incerteza, sabendo que o amor também é uma travessia. A Isabel era, naquele momento, o elo entre o nosso passado e o presente; ela era, no instante, a serenidade em pessoa. Olga Maria Ernesto Augusto mantinha o mesmo olhar curioso e lúcido de sempre. Filomena Jorge, a mais extrovertida do grupo, e Verónica Bie Napuia, a charmosa maconde que o tempo não conseguiu roubar à beleza, estavam com os mesmos risos vivos de outrora. E Roda Valentim permanecia igual: firme, disciplinada e serena, com a compostura natural de quem, desde cedo, aprendeu a conduzir os outros. Verónica e Roda eram as mais politizadas na altura. Quando eram chefes do dia, impunham ordem e consciência. Qualquer “fulho” resultava em punição pública, e nós aceitávamos, não por medo, mas por convicção, porque acreditávamos que a disciplina era um acto de fé. Fomos educados para servir o país, não para servir-nos dele.
Namaacha, como Mariri e Ribaué, e também Cuba, a União Soviética e a República Democrática Alemã, não foram simples geografias. Foram travessias morais, territórios de iniciação, onde a fé no futuro se misturava com o suor da disciplina. Desses lugares nasceram os que hoje movem a engrenagem do Estado e do Partido — e até os que, zangados ou desencantados, fundaram as suas próprias sombras do poder. Em Moçambique, que se diga a verdade, todos os partidos, sejam troncos ou ramos, carregam a seiva da FRELIMO. Uns beberam dela por amor, outros por sobrevivência, e outros ainda por inveja ou ambição. A FRELIMO é o viveiro primordial, a machamba-mãe que fornece mudas às demais, que vende, empresta ou vê roubarem as suas plantas. Cada folha política deste país nasceu dessa raiz antiga, mesmo as que hoje fingem desconhecê-la.
Em Namaacha, no meu caso, cresci como quem se prepara para um sacerdócio — o sacerdócio da causa comum. Aprendi junto dos outros que o país era mais do que território: era uma tarefa espiritual.
Mais tarde, a vida conduziu-nos à Universidade Eduardo Mondlane, depois de passagens pela Escola Secundária Samora Machel, na Beira. Reencontrei-me com a memória do SELF, com colegas e amigos de sonhos académico-intelectuais, quando estudava na Faculdade de Educação, no curso de formação de professores. Recordámo-nos das longas filas à espera da refeição; as bandejas plásticas; o arroz seco; a carne magra; o sabor agridoce da sopa e da farinha amarela; a feijoada das quartas-feiras; o molho da carne, muitas vezes sem carne, e, acima de tudo, a alegria de pertencermos àquela geração que, desde que se formou, constitui a parte técnica do país, alimentando os “motoristas políticos” das instituições.
O SELF, essa residência universitária lendária, moldou-nos mais do que qualquer sala de aula. Foi ali que se criaram famílias sociais e afectivas que ainda hoje resistem ao tempo, à distância e às mudanças da vida. Entre os rostos reencontrados, vi a minha colega de turma da décima-primeira classe, Flora Ventura — que mais tarde ingressaria na Universidade pela porta nobre da Agronomia — hoje esposa de outro combatente académico e intelectual, Paulo Mole, espírito inquieto e generoso.
Lá estava também o Francelino Castelo Branco, irmão do Castelo Branco (maior), que fora um dos meus professores de Química na Samora Machel, mestre exigente e inesquecível. E o engenheiro Ricardo, sempre com aquele mesmo sorriso franco, o sorriso raro de quem ainda acredita que a decência é possível, mesmo em tempos de desencanto.
As conversas com o Francelino abriram-me horizontes e trouxeram de volta aquele gosto antigo pelas ideias. Falámos de tudo: da vida, da educação, da velhice que se aproxima, e das utopias que ainda resistem. Num ápice, entre um brinde e uma gargalhada, nasceu uma ideia: a criação de uma associação dos reformados. Uma ideia linda e brilhante, cheia de sentido e humor, que poderia, quem sabe, capitalizar o pensamento crítico deste país, que tantas vezes se perde entre o barulho e a pressa.
Enquanto uns lutam para entrar no parlamento, nós poderíamos encontrar, nessa associação, um outro espaço: um lugar de reflexão serena, onde se pense Moçambique de forma humana, despida de preconceitos, desarmada de politiquices. Um espaço onde o país possa ser pensado sem cálculo, sem raiva e sem ambição de poder, apenas com a maturidade de quem já deu o que tinha a dar e ainda deseja oferecer o que sabe. A ideia ficou no ar — como uma semente lançada no vento. E quem sabe? Talvez um dia germine entre nós, os que caminhamos para a reforma e ainda acreditamos que pensar o país também é uma forma de o servir. Afinal, a idade não retira o dever da lucidez, apenas nos concede o direito da calma.
Volto, em pensamento, à Namaacha. Eu, vindo de Mutarara, em Tete; a Verónica e a Filomena, de Cabo Delgado; a Olga, a Isabel e a Roda, de Sofala. Éramos um mapa vivo do país, um mosaico de línguas e temperamentos, de danças e esperanças. Ali, a pátria tinha rosto e voz. Aprendemos que a unidade nacional não era apenas um discurso, senão uma prática diária. Era o pão dividido, o balde de água partilhado, a voz do outro a ensinar-nos o nome das estrelas na sua língua. Em Namaacha éramos apenas moçambicanos. Nenhum mais, nenhum menos. Crescemos sob valores que ainda nos habitam: honestidade, solidariedade, pontualidade, respeito pelo bem comum. Aprendemos que o bem colectivo é sagrado e que a dignidade não se negocia. Fomos moldados também pela humildade — aquela que ensina que o saber é serviço, e não soberba. Aprendemos o sentido da justiça, não como lei fria, mas como gesto humano; a empatia, que nos fazia compreender a fome e o frio do outro; a disciplina, que nos preparava para resistir às tentações fáceis; e a verdade, que era dita mesmo quando doía.
De Namaacha herdámos a noção de mérito, não como privilégio, mas como responsabilidade. Lá compreendemos que a liberdade só floresce quando nasce do dever; que a pátria não se constrói com palavras, mas com gestos; que o respeito não é submissão, é reconhecimento da humanidade do outro. Foi também ali que aprendemos o valor da memória, esse cimento invisível que liga gerações. Acreditávamos na coragem silenciosa dos que fazem, sem precisar ser vistos; na lealdade, que não é servilismo, mas compromisso com o essencial; e na esperança, que não se curva às decepções.
Mas o tempo, esse velho mestre, trouxe novas lições e, com elas, o desencanto. Vieram os enteados do poder, os filhos do privilégio, os que nunca conheceram a sopa magra, mas herdaram o banquete. Vieram do nada, mas o nada deles tinha sobrenome. Tomaram os lugares que o mérito nos prometera. E, pouco a pouco, as palavras grandes foram perdendo peso: povo, nação, trabalho, honra, palavras que um dia tinham sangue e agora são moeda gasta. Ainda assim, há em nós um resto de fé antiga, um fogo que o desencanto não apaga, porque quem foi educado em Namaacha-Mariri-Ribaue-Cuba aprendeu que o país cabe no gesto simples de dividir o pouco que se tem, e que a verdadeira revolução começa sempre no coração.
Nós, os continuadores da revolução, fomos ficando à margem, a ver o país ser repartido. Ficámos a ver, com uma mistura de espanto e resignação, a história ser reescrita pelos que chegaram tarde, mas aprenderam depressa a colher o que não semearam. Continuamos a servir, mesmo nesta idade em que já mereceríamos descansar e colher os frutos do nosso investimento político, moral e humano. Fomos a geração que acreditou que o país podia ser maior do que as nossas pequenas diferenças, que o futuro podia ser uma construção colectiva.
Acreditámos na Unidade Nacional e assistimos, desolados, ao regresso das pequenas fronteiras: tribo, região, apelido, raça, conveniência. Voltámos à estaca zero, onde ser desta província vale mais do que ser do país uno. Vimos a ética ser substituída pela esperteza, o serviço público pelo interesse privado, a lealdade pela conveniência. E, no entanto, ainda acreditamos, mesmo quando a fé dói. Continuamos de pé, não por teimosia, mas por lealdade a um sonho que ainda respira dentro de nós. É uma fé cansada, mas não rendida. Uma esperança sem palco, mas com raízes. Continuamos porque não sabemos desistir, porque quem foi educado na escassez e na disciplina aprendeu que servir é também resistir. Sabemos que já não somos o centro, que o país corre em direcções que por vezes não compreendemos, mas não deixámos de ser o alicerce. Somos os que ainda carregam, com dignidade silenciosa, o peso do que foi prometido e não cumprido. Somos os que acreditam que a revolução não termina com um hino, mas com o gesto diário de continuar a cuidar, mesmo quando ninguém vê. E é essa lealdade, essa teimosia que muitos confundem com nostalgia, que nos mantém vivos, porque ainda acreditamos que o sonho não morreu; apenas envelheceu connosco.
No casamento da Agnelda, a vida devolveu-nos um espelho. Entre risos, abraços e recordações, éramos novamente aqueles jovens de Namaacha, dos da Universidae Eduardo Mondlane e de outros sítios por onde passei, livres de etiquetas, fiéis apenas ao que nos unia. Éramos os mesmos, apenas com mais rugas e menos ilusões, mas com a mesma centelha no olhar. Por instantes, o tempo fez uma curva sobre si mesmo — e voltámos a acreditar. A festa foi mais do que uma celebração: foi um reencontro em nome do que resta de nós e do que o país ainda pode ser. Cada abraço era uma confissão silenciosa de que a esperança, mesmo cansada, ainda sabe respirar. Cada olhar trocado dizia: “sobrevivemos”. E sobreviver, nestes tempos de descrença, já é um acto de fé.
Olhei em volta e percebi: ainda carregamos a velha ética da esperança. Ainda somos pontuais. Ainda acreditamos na decência. Ainda resistimos ao cinismo. Há em nós uma espécie de teimosia luminosa — uma recusa em desistir de um país que, tantas vezes, parece ter desistido de si mesmo. Vi nos rostos à minha volta a dignidade dos que serviram sem se vender, a serenidade dos que perderam tudo menos a convicção, a ternura dos que envelhecem com o coração limpo. Nenhum de nós precisou dizer muito: bastava o gesto, o sorriso, o simples estar presente. Ali, entre a música, o riso e o som dos copos a tilintar, havia algo que transcendeu o casamento — uma comunhão. Era como se a vida nos tivesse concedido uma trégua para recordar quem fomos e, sobretudo, para nos lembrar que ainda podemos ser. E nesse instante, compreendi que não era apenas a Agnelda a começar um novo capítulo. Também nós o fazíamos. Cada reencontro é um renascimento, e cada memória reavivada é uma promessa que se recusa a morrer.
Talvez sejamos o que restou da utopia, mas somos também o seu testemunho. Carregamos nos ombros o peso e a graça de ter acreditado. A revolução, aprendi, não morreu — apenas mudou de morada. Agora vive no gesto honesto, na amizade que resiste, na palavra dita com verdade. Vive na solidariedade silenciosa dos que não desistiram, na coerência rara dos que não renegaram o seu princípio. A revolução mora hoje nas pequenas coisas: na integridade de quem cumpre, na paciência de quem ensina, na ternura de quem ainda acredita que o bem é possível.
Saí da festa com o coração cheio de um pressentimento bom: a unidade é possível, mesmo que comece num reencontro, num abraço, num brinde. Porque a pátria não é um conceito — é um laço. E enquanto houver entre nós essa teimosia de acreditar, essa obstinação que resiste mesmo ao cansaço, a pátria não estará perdida.
Sim, fomos e ainda somos os filhos da revolução. Fomos moldados na escassez, mas também na esperança; endurecidos pela disciplina, mas suavizados pela solidariedade. E enquanto o riso da Verónica ecoar, a candura da Olga imperar, a serenidade da Roda permanecer, a Isabel sorrir como quem carrega o tempo, e a Agnelda dançar com o futuro, haverá sempre reencontros em nome da esperança. Talvez esse seja o milagre dos reencontros: devolver-nos, por instantes, o país que fomos e o que ainda desejamos ser. Ver a Agnelda casar foi, de certo modo, ver uma geração inteira a passar o testemunho — uma ponte entre o ontem idealista e o hoje pragmático. Entre as danças e os risos, havia algo de mais profundo a acontecer: uma passagem de chama. Enquanto Chambalson dançava com a noiva, muitos de nós dançávamos com as nossas lembranças, e nelas, o tempo parecia reconciliar-se consigo mesmo.
Havia, em cada gesto, uma ternura antiga, um eco de promessas que resistem. Cada gargalhada trazia o som da juventude reencontrada, e cada olhar cúmplice era uma confissão silenciosa: “Ainda estamos aqui.” E, talvez, isso seja o bastante: estar, resistir, lembrar. E Senti, por um momento, que a própria pátria nos observava - invisível, mas presente, a sorrir discretamente no fundo da sala. Talvez também ela precisasse destes reencontros para recordar-se de si mesma, para reconhecer-se nas rugas, nas memórias e nas danças dos seus filhos. E então compreendi: os reencontros não são apenas celebrações; são rituais de permanência. São a forma como o tempo nos devolve à essência.
E enquanto houver quem se recorde do passado, quem abrace e quem acredite nos sonhos, Moçambique continuará a dançar connosco.
Quando saímos do PITANI, já tarde, o vento de Maputo trazia um cheiro antigo — mistura de terra molhada, de passado e de promessa. Era como se a própria cidade respirasse connosco, cansada, mas viva, a lembrar-nos que o tempo pode ser também um abraço. O chão guardava ecos de gargalhadas, o ar ainda trazia fragmentos de música, e por um instante, a noite pareceu suspensa entre o que fomos e o que ainda podemos ser.
Olhei para Celsa, e ela sorriu. “Foi bonito, não foi?”, perguntou-me, com aquela serenidade de quem sabe que a beleza está no que permanece, não no que passa. E eu respondi apenas: “Foi mais do que bonito. Foi necessário.” Disse isso com a certeza de quem reencontrou não apenas pessoas, mas partes esquecidas do seu marido, que o sou. Há reencontros que não servem apenas para matar saudades. Servem para nos recordar quem somos, de onde vimos e porque ainda acreditamos. Eles são como espelhos que devolvem o rosto limpo da nossa humanidade; servem para nos lembrar que o país, antes de ser bandeira, é laço: feito de gestos, de memórias e de afectos partilhados. É nas pequenas fidelidades que a pátria encontra o seu sentido. E foi isso que senti naquela noite: que, apesar do tempo e das cicatrizes, ainda há um fio que nos une. Que, sob o ruído e o desencanto, ainda pulsa um coração comum.
Este reencontro em nome da Agnelda não é apenas uma memória pessoal — é também um sinal colectivo, um gesto silencioso de reconciliação com o tempo e com o país que nos formou.
É prova de que a esperança, mesmo cansada, ainda sabe dançar com dignidade; de que a pátria, mesmo ferida pelas desilusões e pelas desigualdades, ainda sabe sorrir com ternura; e de que, enquanto existirem reencontros assim, a alma do país continuará a respirar, lembrando-nos de que há um fio invisível que liga todas as gerações que sonharam — e continuam a sonhar — com um lugar mais justo e mais humano.
Uma nota à parte: Celsa, minha esposa, e Artur, marido da minha prima, também encontraram forma de ligar-se ao nosso passado através dos amigos da infância. Foi bonito vê-los entrar nesse universo de memórias partilhadas, como quem se reconhece mesmo sem ter estado lá.
A beleza disso tudo reside na maneira como o espaço se faz cúmplice dessas conversas, acolhendo as risadas antigas e as recordações que voltam a ter corpo. Ali, o tempo parecia abrandar o passo, permitindo-nos vasculhar o vivido sem a pretensão de reconstruir utopias — apenas com o desejo maduro de reafirmar os alicerces do presente, com o mesmo sentido de pertença que um dia nos uniu nas salas, nas ruas e nos sonhos de juventude. E o mais belo de tudo foi vê-los enturmarem-se com tamanha naturalidade, como se também tivessem sido colegas da Namaacha dos anos em que nos conhecemos. Riram das mesmas histórias, partilharam o mesmo espanto diante das fotografias desbotadas e, por um momento, pareciam herdeiros directos de uma amizade antiga que nunca deixou de pulsar. Lá vão décadas — e, ainda assim, o riso, a memória e o afecto continuam a reconhecer-se mutuamente, como se o tempo, generoso por instantes, tivesse esquecido de passar. E é talvez nisso que reside o milagre dos reencontros: não apenas recordar o que fomos, mas testemunhar o que ainda somos, apesar de tudo.
Florentino Dick Kassotche
09 Novembro 2025
O escritor FDK, ao lado de um dos seus melhores amigos, Grilo da Silva Lubrino, em Tete, durante uma actividade partidária. O encontro simboliza mais do que um momento de convivência: é também a prova de que política e literatura não se afastam, mas se tocam, se completam e se iluminam mutuamente. Numa sociedade em que a voz do político, tantas vezes, ecoa mais alto que a de qualquer outro actor, cabe ao escritor fazer da palavra um gesto de resistência, de memória e de futuro - porque, em última instância, tanto a política quanto a literatura buscam o mesmo: transformar a vida colectiva em algo mais justo, mais humano e mais digno de ser contado.
Três gerações A fotografia guarda em si muito mais do que rostos reunidos: ela é memória viva, um elo entre tempos e trajetórias. Nela estão presentes Ilundi Marcelino dos Santos, agora Embaixadora de Moçambique no Vietnam, Pamela dos Santos, eu e a filha da Ilundi — três gerações que se encontram e se reconhecem, como quem tece a continuidade de uma história maior que cada um de nós. O registo aconteceu em Joanesburgo, África do Sul, quando viajei para encontrar-me com Pamela, esposa do eterno Marcelino dos Santos. Não era um simples encontro. Fui levado pelo desejo de me inspirar, de escutar de perto quem partilhou a vida com um dos maiores heróis do nosso país, e de recolher fragmentos que ajudassem a compor a biografia desse poeta da liberdade, desse militante cuja palavra e acção se confundem com a própria história de Moçambique. Naquele instante, diante da presença de Pamela, carregada de memória, e de Ilundi, guardiã de afectos e continuidade, percebi que a vida nos oferece momentos em que o tempo parece suspenso. Ali estavam reunidos os rastros do ontem, a força do hoje e a promessa do amanhã, gravados numa só imagem. Essa fotografia não é apenas um registro. É um testemunho. Um lembrete de que somos frutos de lutas passadas e sementes de futuros possíveis. Um símbolo de que a chama acesa por Marcelino dos Santos continua a arder, atravessando gerações e alimentando novas vozes, novas consciências, novos compromissos. Estar ali, naquele dia em Joanesburgo, foi como regar a memória, essa que é também uma forma de resistência contra o tempo e contra o esquecimento.
Da esquerda para a direita, consigo reconhecer os camaradas:
1. Pedro
2. Eduardo Matangue
3. Manuel Cardoso
4. Alamba Napulula
5. Dick Kassotche
6. ?
Fazendo literatura política com o povo, em plena campanha eleitoral de 2019, no distrito de Chiuta, na província de Tete — foi mais do que uma simples actividade de mobilização. Foi um exercício de escuta, de diálogo e de construção colectiva de consciência. Ali, entre conversas sob mangueiras e encontros improvisados nas praças, a palavra escrita e falada tornava-se ferramenta de empoderamento. A literatura política não era distante, acadêmica ou elitista — era viva, pulsante, moldada pelas vozes dos camponeses, das mulheres, dos jovens e dos mais velhos que partilhavam suas histórias, suas angústias e suas esperanças. Cada poema, cada crônica, cada intervenção era uma tentativa de traduzir o cotidiano em linguagem de luta e de sonhos. Era política feita com afecto e com arte, onde o acto de conversar se tornava também um acto de consciencialização e de afirmação.
Em Chiuta, naquele ano, a campanha não se limitava a pedir votos — ela buscava cultivar consciência crítica, semear ideias e fortalecer identidades. A literatura política ali não era apenas discurso: era prática, era presença, era ponte entre o passado de luta e o futuro desejado.